it's rafaela

O que é a ressaca literária, e o que a causa?

O que é a ressaca literária, e o que a causa?

 

Ah, a ressaca literária! Trágica, frustrante e difícil de ultrapassar, pode ser tão comum quanto súbita. 

 

Há poucos sentimentos como o de ficar perdido num livro, imergir num mundo de imaginação e conhecimento, e esquecer o que acontece em nosso redor. Contudo, todo o leitor mais ávido já se deparou com o famigerado bloqueio literário. O que antes era uma atividade prazerosa e relaxante, torna-se numa tarefa assombrosa. 

 

Mas, o que é isso, na verdade? É feitiçaria? Doença? Fome? Vamos lá ver.

 

 

O que é a ressaca literária?

A não ser confundida com bloqueio criativo, também pode ser conhecida como bloqueio literário e é o sentimento de vazio e desolação que fica quando não conseguimos ler – seja por falta de vontade, dificuldade em concentrar, ou qualquer outra razão. Segundo estatísticas das vozes da minha cabeça, cerca de 90% dos leitores passam por bloqueio literário pelo menos uma vez por ano.

 

A expressão “bloqueio literário” (original: reader’s block) nasceu em 2000, pela voz do escritor Geoff Dryer no livro “Otherwise Known as the Human Condition: Selected Essays and Reviews, e tem-se difundido de tal modo que se tornou numa palavra-chave do dicionário de qualquer leitor no mundo. Dryer descreve o bloqueio literário como uma preguiça imensa, escrevendo: “`Por vezes tenho demasiada preguiça para ler, preferindo ver televisão; mais frequentemente estou demasiado consciente para ler.” Troque-se “ver televisão” por qualquer outro hobby, ou apenas pela vontade de não fazer, e tem-se uma noção mais universal deste fenómeno.

 

Em casa”. escreveu também o autor, na crónica “Reader’s Block” “há imensos livros que ainda não li, e ainda assim, olhando vagamente para as minhas prateleiras, tudo o que eu consigo pensar é, Não há o que ler:” É fácil de nos identificarmos com o texto dele, não é?

 

Por vezes tenho demasiada preguiça para ler, preferindo ver televisão; mais frequentemente estou demasiado consciente para ler.” – Geoff Dryer

 

Eu costumo falar dos meus hobbies – leitura incluída, é claro – como sendo fluídos e imprevisíveis. Há meses em que estou exclusivamente inspirada para televisão e devoro séries e filmes às dezenas. Há meses em que uso todo o tempo livre à minha mão para ler – no autocarro, na pausa de almoço, enquanto espero numa fila, enquanto como. Há meses em que estou obcecada com algum novo hobby – tosse puzzles tosse arte tosse – e esqueço tudo o resto. E apesar de a leitura ser o único hobby que eu tento manter sempre – é raro eu passar um dia sem ler uns minutinhos –, também há alturas em que, tragicamente, não consigo ler. 

 

A sensação de não querer ler, ou não conseguir ler, é uma a que nunca me habituei. Sendo a literatura uma componente tão importante na minha vida, sinto-me vazia e não consigo libertar-me da impressão de que falta qualquer coisa. 

 

Contudo, sei que não estou sozinha. E até há estudos académicos e científicos que exploram a noção de ressaca literária e a sua relação com a arte.

 

 

O que causa a ressaca literária?

Reconhecer que ela está aqui e tentar identificar os pontos chave é o primeiro passo para nos libertarmos dela. Há muitas coisas que podem causar ressaca, mas algumas são mais comuns:

 

  • Saúde mental fraca: o nosso estado mental influencia fortemente aquilo que fazemos no nosso tempo livre. A depressão e a ansiedade, em particular, levam-nos a perder o gosto pelas coisas que antes nos satisfaziam. 
  • Stress e cansaço: não conseguir descansar, dormir pouco, ter demasiadas coisas em que pensar, são fatores que reduzem a nossa capacidade de concentração e a nossa paciência.
  • Défice de dopamina: seja por causa dos factores acima, ou por química pura, o défice de dopamina pode levar-nos a procurar fontes de satisfação mais imediatas (como a televisão, desporto, ou videojogos). A leitura é um hobby de satisfação a médio-longo prazo, por isso não é uma fonte de dopamina fácil.
  • Estamos presos noutro livro: acabamos de ler um livro extraordinário, mas ficamos presos a ele por mais algum tempo. Os personagens não nos saem da cabeça, passamos 90% do tempo a falar dele, e os restantes 10% à espera que alguém o mencione para falarmos dele*. Antes de conseguirmos passar ao próximo livro, temos de digerir o anterior. 
  • Desilusão: o livro que lemos antes foi tão mau (subjetivo), que temos medo que o próximo também seja. Por isso, procrastinamos indefinidamente o início da leitura de mais um livro, ad infinitum

 

Tendo noção de qual é a causa da nossa ressaca, torna-se muito mais fácil acabar com ela. Fácil, não é? Claro que não. Porque alguns destes problemas não são facilmente resolvidos. Portanto, o que nos sobra? Não há uma resposta universal, mas há algumas coisas que se pode fazer para tentar recuperar o gosto pela leitura… de que falarei no próximo artigo. 

 

Portanto, fica de olho aqui no blog, segue-me no insta para saberes quando eu postar novamente, e obrigada por leres até aqui! 

*referência ao filme Mean Girls (2004)

Autor

Designer e marketeer, leitora e escritora.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *